21 fevereiro, 2016

A improbabilidade do amor

O título deste texto não exprime a minha irrelevante opinião sobre sentimentos e afetos. Muito menos é o resultado de qualquer cálculo sobre as quantidades de uma coisa com a qual não se pode contar. O meu título é simplesmente o título de um livro. E é também o título de um quadro. De um quadro que não existe de facto, mas existe na ficção do livro que leva o seu nome. The Improbability of Love é um romance escrito por Hannah Rothschild e nele existe um quadro apenas imaginado, atribuído ao muito real Jean-Antoine Watteau, pintor que abriu o período Rococó, viveu brevemente, criou obra interessante e terá sofrido um amor frustrado.


O tema do quadro ficcional é precisamente o amor não correspondido. A sua composição inclui elementos dos verdadeiros quadros do pintor, entre os quais um palhaço triste (versão reduzida do Pierrot que se pode ver nesta página) que, dum canto da tela, observa um jovem amante prostrado aos pés da mulher que aparentemente brinca com os seus sentimentos. O rosto da mulher seria um retrato do objeto da paixão verdadeira do jovem Jean-Antoine Watteau, posteriormente alterado pelo próprio, numa tentativa de ultrapassar a dor da rejeição. O quadro torna-se, assim, alegoria do amor improvável. 

Jean-Antoine Watteau - Pierrot, antigamente chamado Gilles. Na Commedia dell'Arte, Pierrot era o palhaço triste, apaixonado por Colombina, que o troca pelo Arlequim

Há várias maneiras de gostar do romance. Tal como, quando nos encontramos perante um quadro, o olhar pode atender a cada pormenor discretamente, há nesta ficção três planos, sobrepostos, que poderiam ser apreciados em si mesmos, mas que apenas fazem pleno efeito quando observados em conjunto: a intriga do thriller no mundo da arte e do seu lucrativo comércio (com crimes e amores incluídos) é o primeiro plano, e é também a maneira mais imediata de ler; o segundo plano é a sátira a esse mesmo mundo (com bons retratos de figuras mais ou menos patéticas e representativas), que adiciona riqueza cromática à composição sob a forma de humor; por fim, a arte da pintura ela mesma, ou o amor da arte e da beleza, e da arte de Watteau em particular, dão sentido e coesão ao conjunto e são a sua verdadeira fonte de luz. O quadro, enquanto narrador de alguns dos capítulos, é um ponto de vista privilegiado sobre a vida e a técnica do pintor.  

Há muitas maneiras de gostar de livros, como de todas as coisas. E das pessoas também. E há encontros que só podem acontecer quando as condições estão já encontradas. Seria mais difícil marcar um encontro na estação do Rossio se não se soubesse onde ela fica, ou se não houvesse estação do Rossio, ou se não houvesse uma pessoa com quem marcar o encontro na estação do Rossio. Talvez, se eu nunca antes tivesse encontrado um quadro de Watteau, e não tivesse aprendido a gostar de pintura, este romance não tivesse acordado em mim nenhum prazer maior do que o de uma trama bem amanhada.

O prazer é mais improvável quando não existe memória de outros prazeres. Ou de outros saberes. Não é para isso que serve a educação? Não é disso também que se faz o amor? 

Edição inglesa


Edição portuguesa



08 fevereiro, 2016

Cloud 9 (ironic valentine)




(Antes)

Dizem que o céu é bom
para jantar, mas como
não és sócio
e estavas com pressa
ficaram mesmo ali
na primeira travessa.

De pernas para o ar
e de copos na mão
encontraram uma nuvem
para esconder a razão.
Era a nove, talvez
ou só embriaguez.

Vertigem onde a vida se perdia 
como mentira de luz.


(Depois)

Levaste por fim a sepultar
os gestos mortais, era verão
o peito ardia.

Ficou-te na boca só
um sabor a cinza, nem ouro
nem beijos guardas nem adeus
ouviste.

Uma memória é mais
um embaraço de riqueza
e a nuvem nove era só
a chave inglesa. 


22 janeiro, 2016

Que o próximo presidente seja o último




As eleições presidenciais são já neste domingo. Mal consigo disfarçar a minha esfuziante indiferença. Há um candidato sobre o qual sei demais para poder votar nele; vários sobre os quais não sei o suficiente, e outros dos quais nem quero saber. Recomendo, portanto, vivamente, que toda a gente ignore aquilo que penso sobre o assunto.

Como não quero ser acusado de aconselhar a abstenção, sugiro que façam uma de duas coisas: convençam-se de que algo muito importante depende do inquilino de Belém (se já estavam convencidos disso, lamento), ou então arranjem um pretexto qualquer para justificar a deslocação à assembleia de voto, nem que seja para ir fazer um donativo aos bombeiros. Por mim, planeio um domingo sossegado, que felizmente terminará com a derrota da maioria dos candidatos.

As eleições para um órgão unipessoal, como se costuma chamar à Presidência da República, chateiam-me por um número de razões indeterminado (porque ainda nem tive tempo para as contar), mas a principal é ele ser mesmo “unipessoal”. Um órgão de soberania composto por uma pessoa só não é um órgão, é uma gaita de beiços. Sinto uma imediata antipatia pelas pessoas que têm o ego suficientemente desenvolvido para se candidatarem ao cargo. Como não me imagino a oferecer-me para presidir a uma comissão de festas composta por dois elementos (contando comigo), a presunção de alguém que pensa em ser chefe de um estado (mesmo que ele fosse o estado de coma) parece-me mais difícil de imaginar do que a infinitude do universo, o jackpot do euromilhões, ou a inocência de Sócrates e Salgados. E uso estas moderadas comparações apenas para não me acusarem de usar a hipérbole como figura de estilo.

Espero que o domingo vos seja leve. Não sei se me seria possível sobreviver a uma hipotética segunda volta, a não ser que ela fosse a última e o cargo de Presidente da República fosse logo a seguir constitucionalmente abolido e substituído por qualquer coisa mais útil, como novas vias para ciclistas ou cantinas económicas para políticos sem subvenção vitalícia. 

11 janeiro, 2016

Todos os dias alguém

Woman sitting under a light at a bus stop: Rupert Vandervell


Todos os dias alguém
alguma coisa, parte de nós enfim
se perde.

Parte, de ir embora
de nos deixar em cacos
parte de uma história que ninguém
sabe contar.

No peito, o coração divide-se sempre duas vezes
e duas vezes mais apenas, mas fora dele
a metafórica forma dele
quantas vezes mais pode partir.

Todos os dias morre
alguém nos morre
e não podemos ser nunca mais
a coisa inteira.

Todos os dias alguém apaga uma luz
a noite sobra.   

Lázaro

Hoje, muita gente vai homenagear David Bowie. Com os bons sentimentos não se deve ser cínico. Os que forem verdadeiros acrescentarão ao mundo algum bem. Escolham a vossa canção. Eu escolho aquela que tem o nome do morto que se voltou a erguer. Por isso mesmo, que não é verdade. Porque é canto de cisne. Porque tem alguns músicos de jazz de quem gosto muito. E porque sim.

08 janeiro, 2016

Uma coisa com penas (última canção)

Damien Hirst, The Crow

É uma coisa com penas
que contigo se levanta
e vai contigo dormir.

Todos os dias vem pousar
no teu ombro, pousa aonde
o olhar pousou, repousa
nunca, encobre o sol, assombra
todas as lembranças, não
deixa o silêncio ser teu.

Penas o vento não leva
voam baixo querem chão
devoram a tua carne
deixam só o coração.

Dói-te um sonho de menina
morre o som na tua voz
e essa coisa com penas
que contigo quer dormir
nem deixa o sonho ser teu.

É uma coisa com penas
que contigo se levanta
e vai contigo partir.

06 janeiro, 2016

Dia seis, de reis




Dia seis, de reis

nesta república quase nada passa


o ano sim, o mês, a ocasião


o vento pela praça e por uma sorte estreita


ao abrigo da aragem de janeiro


passa um cão


e um dia assim como outro dia


sem epifania.




(publicado como António Manuel Azevedo, em As escadas não têm degraus, nº 3,  Livros Cotovia, Março 1990)

03 janeiro, 2016

Revólver na cabeça

Sunrise, F.W. Murnau (1927)

Não é por serem verdade os versos
achados numa página da internet
que copias o poema para arremessar
à boca do inferno. Vingança talvez
a cantiga é o revólver vais fazer
uma revolução à queima-roupa
queimar a roupa da cama afogar
na banheira quem sabe o último amor.

Roubadas máximas, mínimo esforço
aforismo afora transcreves sentença, encolhes
o medo, as saudades apertam ainda e o coração
mora sozinho com um canário amarelo no terceiro andar.

Os versos falavam de quê, não importa
vinham acordar uma dor qualquer, um baixo
profundo que pulsa, impercetível pulsa
mas não pode dizer nada, pode ouvir
quase nada e quase nada pode ser.

Não precisam falar verdade os versos
basta que firam basta que rimem menos mal
com o mal que tão imperfeitamente fingem ser.

Ali em baixo passava um rio, ou riacho
acho (é fácil esquecer o que sempre é presente
mal se sente. Sabemos só o que falta
quando o tempo falta). Fala alto, esfrega as mãos
os versos também podem fazer frio
atas um fio na ponta de um pau desces
até à margem lamacenta, os pés entre mínimos
girinos, como se fosses pescar o que perdeste.

E sentado na lama viste nada claro
acendeste um cigarro
farol de marinheiros de águas doces
que até entre as mãos perdem a cabeça. 

25 dezembro, 2015

Matinal (para ouvir só)

Girl waiting in the rain, by ZU Photography
Nem tudo pode ser belo
pela manhã
mas vale a pena acordar
quando o som nasce
e a sombra se levanta.

Levas contigo um saco azul
onde a chave se perde, o relógio
pequenino, um lenço de papel
para enxugar a noite e um coração
de prata.
  
Uma nuvem vai e deixa ver
o mar, para onde as dunas descem
desoladas.

Não importa se chove, ouve só
a chuva, o comboio que não chega
a impaciência
de quem espera e tu esperas
o quê?

Ouve só
o que ninguém pode ver.
Ouviste?

11 novembro, 2015

Fantasmas


Conheço gente que vive em casas assombradas. Há mesmo tanta gente que vive em casas assombradas, como descobrimos nas últimas semanas em Portugal, que mais parece que vivemos num país assombrado. Geralmente não se fala disso, porque os fantasmas se tornaram tão familiares que, em circunstâncias normais, já ninguém repara. Mesmo se há visitas respeitáveis em volta da mesa de jantar, a assombração entra na conversa e nada de especial acontece. É como se o fantasma fosse de casa.

E é de casa. Todos os fantasmas têm casa. Não há fantasmas sem-abrigo. Mas onde os fantasmas em que estou a pensar, aqueles que existem mesmo, realmente se abrigam, não é entre quatro paredes e debaixo de um teto nas casas de tijolo e de cimento, mas no interior de crânios hospitaleiros. Digo de propósito crânios, e não cérebros, porque a materialidade destes fantasmas rouba algum espaço vital à massa de neurónios. A sua grande habilidade, que lhes garante a sobrevivência enquanto espécie, consiste no facto de terem uma grande semelhança com ideias e pensamentos normais.

Para não matar de cansaço a metáfora, ou hesitando já na analogia, como quem indecide o que vestir de manhã, talvez fosse melhor falar de ideias parasitas, em vez de fantasmas. Não sei bem. Observo apenas que as interessantes semanas que mediaram entre as eleições de 4 de outubro e a rejeição do governo Coelho-Portas, pela maioria dos deputados que os votos dessas eleições levaram a S. Bento, revelaram uma quantidade tão grande de reações reflexas, histéricas ou simplesmente idiotas que sobrou pouco espaço para ouvir comentários objetivos e serenos. Escutando a gritaria, e se não soubesse muito bem como a gente das políticas é dada a hipérboles do tamanho das birras do Deus do Antigo Testamento, poderia até pensar que estava iminente uma revolução comunista, com a nacionalização relâmpago de todos os sectores da economia, o fuzilamento dos grandes capitalistas e a proibição da Coca-Cola.

Ora, se bem vejo o que já mal posso ouvir, a probabilidade de os partidos da esquerda portuguesa fazerem uma nova Revolução de Outubro é quase tão grande como a do regresso da Inquisição por iniciativa dos democratas-cristãos do CDS-PP, com fogueirinhas para queimar hereges depois da missa: nenhuma delas é absolutamente impossível, mas a sua probabilidade está muito próxima do zero. Poderia aqui fazer uma demonstração histórico-matemática, mas prefiro acreditar na inteligência dos meus acidentais leitores, que talvez habitem o mesmo século que eu e já devem ter procedido à limpeza do sótão que a higiene mental impõe.


Acho que quase toda a gente exagera bastante a importância dos acontecimentos. Uns sentem agora mais esperança, outros entram em desespero, mas quase todos parecem subestimar o poder do tempo, a indiferença do cosmos e a incompetência que geralmente nos salva dos grandes desígnios. Não tarda muito, o país regressa à mediocridade em que nos sentimos todos mais confortáveis. A não ser que haja um terramoto…   

18 outubro, 2015

Maioria ou dó menor?


À gruta funda em que me abrigo das agressões do clima político e económico, chegam fracos farrapos de notícias. Tenho uma janelinha com grades no quarto dos fundos, por onde entra alguma luz natural, mas é demasiado pequena para admitir os tremendos presuntos da pátria, que através das barras de metal me chegam já fatiados, como o fiambre e o queijo com que confeciono uma frugal sandes mista sem manteiga. E não é de coisas mistas que se ouve falar? Coligações, ou assim...
Se alguma coisa entendo do que se tem passado à superfície desde o dia em que levei o nariz à rua para ir votar, a simples aritmética não se aplica ao sistema político português, que é mais sofisticado do que as simples democracias parlamentares. Os votos e os assentos no hemiciclo de São Bento não valem todos o mesmo, traduzo eu. Aparentemente, a soma dos deputados da PàF vale mais, sendo embora aritmeticamente inferior ao número dos eleitos pelas pessoas que obviamente não queriam a PàF a governar. Vale mais, portanto, ter um governo que a maioria não quer, mesmo que a maioria conseguisse formar outro governo. É democraticamente impecável. Até porque, ainda segundo a minha livre tradução da brisa outonal, há votos que só servem para eleger oposições e outros que servem para formar governos. Porque sim, dizem.
Dizem que os partidos da esquerda não podem fazer compromissos para governar porque têm programas muito diferentes. E eu pensava que era por isso que eram partidos diferentes. E que querem coisas malucas, das quais nem se pode falar na presença de pessoas de bem, porque provocam hemorragias nasais e fazem crescer cabelo na palma das mãos. Aparentemente, portanto, os partidos da direita não têm programas próprios, nem diferenças ideológicas, nem nódoa que não saia com uma boa passagem pela água benta do poder, que dissolve convicções firmes como quem revoga decisões irrevogáveis.
Não sei se as convicções da esquerda são menos solúveis, mas lembro-me de um primeiro-ministro socialista que disse que meteu o socialismo na gaveta. Nunca mais por cá foi visto. Ora, se os ditos social-democratas podem ser neoliberais, os ditos socialistas podem ser oportunistas e os sempre democratas-cristãos podem fazer o inconfessável (desde que o confessem e vão à missa comer uma bolacha sem fermento), por que é que um comunista não pode mudar de oculista?

Cidades do Interior

Chiharu Shiota, A Room of Memory , 2009 são vastas as cidades do interior de noite corremos as ruas ao abrigo da luz param...