04 julho, 2015

Um dilema em dias de ócio


Se eu quisesse, escrevia hoje sobre o dilema grego. Afinal, dilema é uma palavra de origem grega, formada pelo prefixo di-, que significa dois, e por lemma, que significava premissa, ou coisa recebida e aceite como verdadeira. Na lógica, dilemma era uma espécie de silogismo, no qual, de duas proposições apresentadas, uma ou outra seria verdadeira. Mas, oxi ou nai? Na retórica, consistia em oferecer a um opositor a escolha entre duas alternativas igualmente desfavoráveis. Oxi ou nai? No vertente dilema helénico, a escolha que os incríveis credores oferecem é mais ou menos a de um salteador ganancioso que se engana nas conjunções: “A bolsa e a vida!”

E é isto a vida? É a economia? São a mesma coisa? Não parece que se trata apenas de política ao serviço de um certo sistema financeiro? Os pobres que se amanhem ou que saiam de baixo.

As coisas podiam ser de outra maneira, se as pessoas deixassem de achar tudo óbvio e natural em matéria de economia. Se deixassem de aceitar os lemmas, as premissas, dos silogismos que as leis do lucro e do mais forte impõem como “lógicos”. Mas para deixarem de achar tudo óbvio, precisariam de estudar mais, em vez de lerem jornais ou de irem às universidades adquirir certificados de comportamento ideologicamente correto, por equivalência ou não. Se estudassem mais, até deixariam de achar que a economia é a mesma coisa que o sistema económico e descobririam, talvez, que nem uma nem outro são fenómenos naturais, como os terramotos ou os golos do Eusébio. As coisas podiam ser de outra maneira porque são pessoas que as pensam e que as fazem. Chama-se cultura, isso que as pessoas colhem do que em sociedade semeiam. A economia é o que as pessoas juntas dela fizerem.

Então, e há para aí leituras para pensar sobre o mundo “fora do caixão” em que levaram o cérebro a sepultar?* O que se poderia ler então para abrir um pouco a janela deste sufoco ideológico? Sei lá. Talvez Debt, the First 5,000 Years, de David Graeber, para uma visão antropológica de longo alcance histórico e cultural sobre dívidas e dinheiro, a começar pelo mito fundador da doutrina económica, que vem de Adam Smith e que todos os manuais de economia repetem desde 1776 sem terem investigado nada: a ideia de que antes de haver dinheiro os negócios se faziam pela troca direta de géneros. Parece que nunca foi assim, revelação que relativiza bastante tudo o que se possa ler sobre “economia” (as aspas fazem já parte do meu processo de relativização). Pelo menos, ler Graeber ajuda a pôr tudo noutra perspetiva. Não é indiferente o lugar de onde se olha, nem é bom ignorar o lugar dos outros. 
 
Se eu quisesse escrevia sobre o dilema grego. Mas para isso era preciso que estivesse mais interessado em economia e em negócios, o que só seria possível se “negócio” não fosse uma palavra de origem latina formada pelo prefixo negativo nec- (não) e pela palavra otium, que deu o nosso “ócio”, e significava tempo de lazer, dedicado ao descanso, à comida, aos jogos, à contemplação ou ao estudo. Negócio? Não ao ócio? Oxi, claro, porque hoje é sábado e amanhã é domingo.


* Esta pergunta é uma forma de retaliação em espécie contra a estratégia retórica dos pensadores da monocultura dominante, que consiste em chamar estúpidos a todos os que pensam de maneira diferente.

06 junho, 2015

As estantes: monoculturas e o mundo claramente invisível

you can't leave me on the shelf
you gotta commit yourself

Billie Holiday, “Now or Never” (1949)

Quando olho para uma estante, vejo apenas um sítio para arrumar livros. Tenho uma visão pitosga do mobiliário e da decoração. Embora saiba que as prateleiras podem ser usadas para colocar muitos outros objetos, a coisa que primeiro me ocorre, certamente por força do que a vida me fez e do que eu faço dela, é aquilo que as prateleiras podem fazer pela minha modesta biblioteca. A limitação não está nas estantes, portanto, mas na minha imaginação.

As minhas estantes são estantes especializadas. Como se especializaram em livros, estes acabaram por ocupar todo o espaço de que elas podiam dispor. Logo, as estantes são como as pessoas. Às nossas especializações, profissionais ou diletantes, costumamos chamar “ocupações”, designação que parece apropriada, uma vez que elas ocupam muito do espaço onde outras coisas poderiam caber. Podem ir ocupando literalmente o espaço físico e finito das casas onde vivemos, se forem como as estantes de quem adquire muitos livros, por exemplo, mas ocupam sobretudo o espaço da mente, cujo potencial infinito costumamos confinar aos dois ou três quartinhos habituais, aqueles recantos da casa do ser que nos dão o conforto da familiaridade.

Somos, pelo menos em parte, aquilo que nos ocupa, mas estes hábitos ocupacionais são apenas aquilo de que podemos mais facilmente falar quando nos apresentamos a alguém. Dizemos: “sou professor”, “sou eletricista”, “sou melómano”, “sou colecionador de borboletas”, etc. As ocupações são identidades de cartão, bidimensionais e recicláveis, embora poucas vezes as reciclemos de forma voluntária, porque perder um hábito que socialmente nos define é mais difícil do que perder alguém de família.

E quando a autodefinição nos agrada, persistimos. Se a persistência se torna monomania, porém, podemos um dia acordar com o mundo às avessas: em vez de ver nas estantes superfícies para arrumação de livros, podemos dar connosco a achar que o mundo inteiro é apenas um conjunto de estantes em potência. O hábito torna-se assim num vício com inclinações expansionistas. A partir daí, a lógica já só existe na mente do obcecado bibliómano, que ainda assim a achará evidente e universalmente compreensível.

Todo o mundo é uma estante

Portanto, até os bons hábitos podem ser maus. A especialização disciplinar dos estudiosos de qualquer matéria é um desses hábitos expansionistas: é uma coisa tão boa que pode ser catastrófica. É desejável, porque é sempre preciso saber mais e é impossível não restringir aquilo que se estuda a uma pequena parcela da realidade de cada vez. Só que, quanto mais o olhar se especializa e mais é o que vê no menos que olha, mais é também o que perde naquilo que deixa de olhar:

Até que a luz que se faz não deixa ver
a luz inteira
e a noite fechada de fraco fósforo
se alumia 

Aquilo que nos define pode ser também aquilo que nos cega e nos constrange. E constrange e obscurece o mundo ao ponto de o tornar invisível, de tão claro.

Mas o que é realmente aterrador é quando a visão estreita de pessoas individuais se transforma em todo um Zeitgeist, que em português se costuma traduzir por “espírito do tempo”. É o que ocorre quando o olhar de uma especialidade se transforma na única maneira de pensar sobre a realidade, ou uma parte considerável dela, quando uma monomania se transforma numa monocultura.

Infelizmente, vivemos numa dessas monoculturas e a especialidade que arruma o mundo todo nas suas prateleiras é a economia. Já ouvi dizer que a crise nos transformou a todos em economistas instantâneos, o que, para mim, não significa que haja mais gente a perceber melhor o que se passa, mas mais gente a olhar para o mundo pelo lado errado do telescópio. Pode ser que muitos não tenham dado conta, mas toda a conversa que passa por política nestes tempos que não correm, mas se arrastam, não é mais do que a redução pitosga da sociedade a um conjunto de indicadores macroeconómicos e variáveis contabilísticas.

A sociedade não é redutível a relações económicas. A economia não é uma “teoria de tudo”. Andam a pôr a nossa vida nas prateleiras erradas.

10 maio, 2015

Angústias de um anglófilo anónimo (com vocabulário de inglês alimentar)


O autor semificcional destas páginas é aquilo a que se costuma chamar anglófilo. Ao princípio, não dói. A doença poderá ter sido incubada em resultado de uma resposta irrefletida para calar interrogatório de criança. Disseram-lhe que a cegonha o trouxera de Londres, em vez de Paris, de onde todas as crianças deveriam, educadamente, proceder. É uma quase mitologia particular, que poderia explicar duas coisas: a quase traição à pátria língua dos exclusivistas hábitos de leitura que manteve durante muitos anos e ainda a dificuldade de cantar em coro sem desafinar. Excentricidades.

A condição de anglófilo – que aqui se refere às culturas de língua inglesa e não apenas à Inglaterra – tem várias fases empiricamente observáveis. Na primeira, olha-se muito para cima. Tudo o que fala inglês é alto e reluz. Na segunda fase, há algum conforto e sorrisos parvos de reconhecimento. É como andar em casa sem chocar muito com a mobília e o pescoço já não dói tanto. Depois disso, o inglês já não é bem uma língua estrangeira. Às vezes é até como se um espelho nos devolvesse a cara mal amanhecida de um susto qualquer. Abrem-se por fim completamente os olhos e não é o sol que brilha de todos os traseiros. É também pelo olfato que se sobe à realidade. (Sobe, sim, porque nunca me pareceu que encontrar a verdade pudesse equivaler a uma queda, mesmo que a descoberta implique maçãs indigestas e traumatismos vários).

Hoje, esse quase-eu que a contragosto subscreve o que agora escrevo é uma espécie de anglófilo anónimo: não tem cura, nem vai às reuniões, mas admite que tem um problema. Problema que imperfeitamente se resume no entendimento de que Portugal, que era, segundo Eça, um país traduzido do francês em calão, é hoje um país traduzido do inglês por calões. Se não fossem preguiçosos tradutores de ideias pré-fabricadas, políticos, economistas e plumitivos sortidos teriam mais dúvidas e angústias. Bastava perguntarem ao cozinheiro da história que se segue.

FOOD STAMPS (vocabulário de inglês alimentar - 1)

Bertrand Olotara é cozinheiro no Senado dos Estados Unidos, a câmara alta do poder legislativo americano. Todos os dias alimenta os homens do poder, mas ele próprio não ganha o suficiente para se alimentar, nem para alimentar os cinco filhos, que educa sozinho. De nada lhe servem os dois cursos superiores (Direito e Gestão). Nem com um segundo emprego (numa mercearia) e trabalhando 70 horas, sete dias por semana, as verdinhas lhe chegam para verduras ou farturas. Precisa ainda de recorrer aos chamados food stamps, cupões para adquirir alimentos que são concedidos aos cidadãos americanos empregados, ou que se inscrevam em estágios e cursos de formação, e que não ganhem o suficiente para viver. O ministro Mota Soares estudou a lição.


Na maior economia do mundo, quem trabalha, mesmo duas vezes a tempo inteiro, pode passar grandes privações e não ter sequer dinheiro para pagar a renda de casa. Vivem muitos em parques de caravanas; outros partilham quartos; alguns ainda dormem no carro, se o tiverem, ou até na rua, que é mais ventilada. O modelo primeiro do que se chama “mercado livre” e do individualismo empreendedor; o modelo mesmo da sociedade capitalista e meritocrática a que muitos dos nossos tradutores de ideias estúpidas em “econinglês” aspiram, subsidia assim, através dos food stamps, as empresas que pagam salários miseráveis. Como a Walmart, que é propriedade de uma das famílias mais ricas do mundo. E rico, aqui, quer dizer seriamente, fabulosamente, obscenamente e, já agora, imoralmente rico. A não ser que a alguém pareça moralmente aceitável a exploração do trabalho escravo. E que outra coisa se pode chamar a esta maneira de tratar quem trabalha? Discutir se isto é mais ou menos neo-liberal é apenas uma questão de pedântico mau gosto.

Quem paga o salário de Bertrand Olotara é uma empresa privada, naturalmente. Porque estes estados capitalistas de ideias mais avançadas não podem contratar funcionários (pecaminosa despesa), mas contratam empresas (que são despesas boas) e deixam-nas fazer o que entendem, porque o mercado é “livre”. A desonestidade intelectual e a injustiça social vão assim de mãos dadas, numa simetria que resulta esteticamente impecável: as empresas choram a caminho do banco e os empregados correm ao banco alimentar.

FOOD BANKS (vocabulário de inglês alimentar - 2)

Os cidadãos do Reino Unido acabam de votar maioritariamente no mesmo partido que os governou durante os últimos cinco anos, manifestando a sua satisfação com a política a que se chama de “austeridade”, que sábia e corajosamente consiste em reduzir todas as despesas com coisas inúteis. Ou seja, essencialmente com os pobres, que não morrem, nem saem de baixo.

Há cinco ou seis anos, os food banks (bancos alimentares) eram uma coisa raríssima no Reino Unido. Hoje há mais de mil. Servem todos aqueles que não têm dinheiro para comer, empregados e desempregados. Muitos “empregados” recebem apenas as horas que trabalham por semana se os empregadores precisarem deles, sejam 50, sejam zero (é por isso que se chamam zero-hour contracts), sem nunca saberem o que os espera ao virar da esquina. Esta “flexibilidade laboral” resulta em enormes benefícios para a economia, segundo afiançam, também por cá, os mais conscienciosos sábios. E garante também que há menos trabalhadores obesos, digo eu.

Os desempregados, por sua vez, não têm outro remédio se não ir pedir comida, porque perdem os subsídios se não cumprirem as regrazinhas da burocracia dos centros de emprego, como apresentações regulares (tipo medida leve de coação para arguidos), mesmo que isso implique gastar o dinheiro que não têm em transportes que ninguém lhes paga. O governo português também não faltou a essa aula.  


Quase 5 milhões de pessoas no Reino Unido não têm o suficiente para comer. Mas a culpa é dos pobres, como muito bem têm observado os políticos do partido agora reeleito. Se não, vejamos. Michael Gove, líder parlamentar dos Conservadores, disse que as pessoas que usam os bancos alimentares “não sabem administrar bem as suas finanças”. A baronesa Anne Jenkin, que tem assento na câmara dos lordes e dedicou alguma atenção ao assunto, concluiu (nobremente) que “os pobres não sabem cozinhar”. A ex-deputada conservadora Edwina Currie afirmou que as pessoas que usam os bancos alimentares desperdiçam dinheiro em tatuagens e em comida para cães. Coisas destas não se ouvem por cá, pois não?

Portugal acha que é um bom aluno de inglês, mas toca muito de ouvido e é meio mouco. Juntamente com as duas grandes economias anglófonas dos exemplos acima, completamos o trio de países da OCDE onde as desigualdades entre ricos e pobres são maiores. Já estávamos nesta posição antes desta crise, que serve de pretexto a tudo, mas não justifica grande coisa, e estamos agora a fazer as políticas que garantiram aos outros dois países tão invejáveis posições na tabela classificativa da indignidade. Well done! Parabéns! 


12 fevereiro, 2015

Gregos radicais e iogurtes nacionais: crónicas da dúvida soberana



Deveria fazer-se crónica miúda e ilustrada das maneiras como as pessoas se agregaram em resposta às gregas ocorrências. Não estou a pensar apenas nas respostas políticas e institucionais, mais ou menos picadas pelo ferrão da helena melga que a meio da noite do austero inverno veio perturbar o sono burocrático dos ocupantes das cómodas cadeiras do consenso. Estou a pensar também nas reações do chamado “cidadão comum”, o verdadeiro habitante do parvus mundus (do latino “pequeno”, não do corrente “parvo”). E já nem falo, embora falando já, dos ermos crânios da opinião, os que tudo precisam de saber dizer por encomenda e com hora marcada, ao menos para preservação da face e do estipêndio.

Destes últimos, dificilmente esquecerei, até ao derradeiro dos meus monótonos dias, o painel de um orgulhoso canal de notícias que acompanhou as imagens da noite eleitoral emitidas de Atenas: sem que nenhum dos três “especialistas” percebesse palavra de grego, sem tradução consecutiva ou simultânea e sem legendas possíveis, nenhum deles pediu escusa de funções, nem se sentiu inibido de comentar fosse o que fosse. Como? Pedindo desde já desculpa aos animais da única expressão que me ocorre, enchendo de palha os jumentos que ficaram a ouvi-los.

Em vários canais, na mesma noite, jornalistas e enviados “especiais” lamentarem-se, quase timidamente, do facto de os chefes dos partidos gregos não falarem ao menos inglês nos seus discursos de vitória ou de derrota. Uma desconsideração, seguramente! Não sonhei, era ainda cedo e não tinha bebido ao jantar. Viram-se os ditos repórteres proverbialmente gregos e ficaram os líderes dos partidos portugueses cientes de que nas próximas legislativas vão ter que pensar em satisfazer a curiosidade das hordas de jornalistas estrangeiros, já previstos por vários analistas políticos e agências de viagens, perante a iminência de um resultado eleitoral verdadeiramente estranho em Portugal: a vitória de um dos dois partidos do costume! Porque “Portugal não é a Grécia!”, repete diariamente o trágico coro.   

Fomos, assim, incomparavelmente informados, à maneira do repórter do romance Scoop, de Evelyn Waugh, que desembarcou do comboio no país errado, mas nem por isso deixou de relatar a guerra nas páginas do jornal que o enviara ao país onde ela realmente ocorria. Os nossos comentadores e repórteres desembarcaram as ideias feitas que tinham mais à mão e entregaram às redações a encomenda. Contribuíram assim para que os seus leitores, espetadores e ouvintes se dividissem de acordo com as mesmas ideias feitas, com rótulos vazios, mas que bastam ao preconceito e dispensam estudo: radical, marxista e... sexy (conceito político que não descobri na minha estante, mas admito apropriado e relevante para avaliação objetiva das propostas gregas).   

A crónica que não se fará das diferentes atitudes relativamente ao caso helénico encontraria certamente as pessoas divididas em dois grandes grupos – como em quase tudo neste planeta, que antes era analogicamente maniqueísta e agora é digitalmente binário: as que gostaram dos resultados e esperam algo de bom e as que acham que o resultado vai dar em desgosto e temem algo de mau. Como em quase tudo o que tão simplesmente se divide, os dois grupos estarão certamente errados.

Mas que tantos tenham, simplesmente, prestado um pouco de atenção, já me diz que outras luzes se podem estar a acender, ou que a fadiga perante a ladainha com que se encantam os tolos pode, finalmente, ser mais do que uma vela acesa à espera do milagre. Ou, então, é tudo imaginação minha.


28 janeiro, 2015

Soberana sesta

Depois da EDP, da REN, da PT, da TAP, do frango assado e dos pastéis de nata, parece que a última coisa que ainda é realmente nossa – e fazemos quase tão bem como os melhores – estaria afinal para ser vendida também. E logo a única produção nacional que o Dr. Passos Coelho tem feito crescer significativamente, sem que o mérito lhe seja por todos devidamente reconhecido.

Logo agora que estava tão pimpona e se podia apresentar a estranhos sem ter que pentear a guedelha negligente, parecia que vinha aí um Mário qualquer – italiano invejoso e amigo do alheio – oferecer-se para comprar a dívida que, de tão nossa, até se chama “soberana”. O último pedacinho de Portugal que nos resta, e do qual devíamos sentir patriótico orgulho, poderia começar a desaparecer mediante a perversa troca por outra dívida com juros mais fraquinhos e fabricados em Frankfurt. Pensei eu! Afinal, o senhor só queria oferecer a massa a quem melhor a tem sabido cozinhar, os nossos muito amados bancos, que tantas maravilhas têm operado por esse mundo fora. A nossa dívida, portanto, parece garantida por muitos e bons anos e promete tornar-se uma senhora de bom porte. E que os deuses a conservem.

Só estaria ameaçada, por hipótese absurda, se nos ocorresse eleger um governo “radical”, que quisesse desfazer-se dela, ou de parte dela, assim sem mais nem menos, como os malucos dos gregos. O radicalismo do governo Tsipras manifestou-se logo na tomada de posse. Ainda antes de começar a dispensar a dívida, quase todo o governo grego dispensou a gravata e a igreja, num prenúncio claro de que pretende desfazer-se de certos nós e ortodoxias. Com tanto radicalismo, um dia destes ainda os apanham a comer bifes de soja, a usar sacos recicláveis e a governar para os cidadãos em vez de financiar os bancos.

A nossa sorte é haver sol e praias com areia suficiente para estender a toalha, porque assim podemos continuar a dormir uma longa e reparadora sesta.  

Portugal e a dívida


04 janeiro, 2015

A coisa assim quase dá certo

Arthur Boyd - Cripple in smoke from factory chimney (1942)


“Ausência de indústria e de fábricas significativas,
eis a higiene de um país como o nosso.
E quando não há chaminés importantes
até o fumo do cigarro conta para efeitos estatísticos.
Não é grande nem é enorme mas é simpático, este país.
Dois lados dão para a terra, dois lados para o mar.
E a coisa assim quase dá certo.”  

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (2010)



Os números são sinais. Quando os números são convocados a assistir ao conselho de ministros, vêm a público dar sinal do épico trabalho do governo para endireitar o que nasceu torto. Chamam-lhe uns trabalho de Hércules, outros de Sísifo, quase. A mitologia grega parece excessiva para a mundana tarefa de arrumar a escrita, porém, como os números são muito pequeninos e estamos em ano de eleições, é preciso usar ao menos um megafone e duas hipérboles.

É assim que crescem a natalidade e a economia, e o desemprego baixa, presumivelmente porque a aquisição de uma dúzia de fraldas descartáveis a mais do que em período homólogo do ano anterior fez aumentar significativamente o PIB e sinaliza uma clara tendência de crescimento sustentado.  

A língua enrola-se adjetiva e adverbialmente; as têmporas latejam em êxtase estatístico; o chão treme e o país avança mais um centímetro na direção do vale fértil.

E mais vale tarde ao vale, não diz o ditado, mas podia dizer. Remoto consolo é o céu.


02 janeiro, 2015

Acidente


Portugal é o país onde os portugueses acontecem.
Se os portugueses fossem mais organizados
e fizessem mapas, iriam acontecer ao pé de outra gente
preventivamente.


Se um português acontecesse na Noruega, que é menos quente
já não teria depois que pôr-se ao fresco
porque seria logo norueguês e ainda teria bacalhau
se lhe apetecessem pataniscas.


Do que nunca se lembraria outra vez
era de ser português
e de ter saudades de coisas que nunca passaram nas televisões
como grandes batalhas com aparições
e restaurações, no tempo em que havia unicórnios
e dragões


e todos os portugueses eram heróis
e muito honestos
e mais espertos do que todos os outros
que eram só piratas, coitados
e espanhóis.


01 janeiro, 2015

O ano da fava


Os balanços do ano finado e as previsões para o ano que alvorece estão para esta infindável quadra, forçosa e esforçadamente festiva para muitos, como o bolo-rei ele mesmo: ninguém aprecia especialmente, mas faz-se sempre. O ser humano afeiçoa-se com facilidade a celebrações e preenche os calendários com dias “especiais”. É claro que a sua profusão os torna menos especiais, mas qualquer desculpa serve para comer até para lá da saciedade, beber até ao estupor dos sentidos e, claro, para retrospetivas e prospetivas perdas de tempo.

Entre balanços, previsões e todas as marcas das celebrações, prefiro contemplar a fava. A fava vem metaforicamente a propósito porque é o legume que mais provavelmente sairá à maioria dos portugueses no inauspicioso ano que me amanheceu hoje, enfriado e embaciado, nas vidraças da janela. Segundo me é possível vislumbrar entre os espumosos vapores da festança de ontem e os gases tóxicos de uma campanha eleitoral que começou com um ano de antecedência, o ano de 2015, por muito que me custe rebentar o balãozinho ainda meio insuflado dos meus ressacados leitores, não vai ser nada de especialmente divertido.

Sem cartas astrais, baralhos de tarô, folhas de chá ou mendes e marcelos, não prevejo nada realmente bom (realmente não prevejo nada, mas é maneira de falar). E se o que aí vem apenas bom fosse, já ótimo seria. Pela riqueza do discurso político que se ouve, que pouco deve à imaginação e à dívida tudo deve, vai ser um ano em que, mais uma vez, se falará do que menos abunda como se a sua abundância fosse tudo o que falta.

Se ao menos a árvore de Natal fosse a das patacas, pensamos nós, logo se veria.  


08 dezembro, 2014

A demanda do bêbedo: exercícios de estatística acrobática para as escolas

Os rankings das escolas começaram por me deixar um pouco mais tranquilo, uma vez que provaram, de maneira que julgo irrefutável, que os funcionários do Ministério da Educação têm acesso a computadores e a máquinas de calcular. Depois dos episódios da colocação de professores, havia sobre o assunto um justificado ceticismo, que agora se dissipou. Julgo, contudo, que os referidos recursos informáticos teriam sido mais úteis ao país se os funcionários tivessem passado os últimos meses a jogar Angry Birds ou a ver vídeos de gatinhos no YouTube. Pelo menos teríamos alguns cidadãos descontraídos, em vez de milhares de pais enganados.

Os rankings, ou “ordenações”, não resultam da avaliação de coisa nenhuma, lançam luz sobre o que já estava iluminado e obscurecem aquilo que queriam dar a ver. O problema da aplicação de métodos quantitativos a questões sociais é muitas vezes este mesmo: medem-se as coisas que podem ser medidas, porque é fácil, e ignoram-se as coisas que precisam de ser medidas, porque é impossível, ou pouco prático. Somar as notas dos exames e fazer a média é exercício de crianças, mas ordenar escolas aplicando a algumas (privadas) este único critério e acrescentando à maioria (públicas) ponderações de quantificação mais ou menos impressionista é coisa mais arbitrária do que o peso de um arrátel na Idade Média (quantas décimas vale a média entre 7 pais operários fabris, 3 canalizadores e 8 escriturários?).

Produzem-se então umas tabelas giras, que agradam especialmente aos diretores de colégios privados, e cria-se a ilusão de que se ficou a saber alguma coisa que não se sabia anteriormente. Recorrer a estes critérios e às tabelas ordenadas que resultam da sua aplicação é fazer como o bêbedo que procurava as chaves de casa debaixo do candeeiro da rua, porque tinha mais luz, em vez de ir à procura delas no sítio onde as perdera. A analogia entre a demanda do ébrio cidadão e os erros produzidos por uma investigação pouco avisada é bastante velha e o ministro Nuno Crato, que parece geralmente sóbrio, percebe-a pelo menos 100 vezes melhor do que eu (mas admito a imprecisão da minha matemática).

Comparar resultados de uma escola privada, que leva a exame 100 alunos selecionados, com os de uma escola pública que leva 500 que ninguém escolheu (alguns dos quais nem sequer frequentaram a dita) é, no mínimo, enganador quanto à qualidade dos estabelecimentos. Assim, os rankings das escolas parecem apenas mais uma modalidade do desporto radical que muitos políticos praticam: a estatística acrobática. Há alguns que dominam perfeitamente o mortal à retaguarda com pirueta e outros que apenas se espalham ao comprido e ficam convencidos de que caíram em pé. Mas não faz grande mal, porque há sempre bastantes eleitores que se deixam enganar e até uns quantos que gostam de ser enganados.  


O senhor ministro acha fundamental que os pais tenham informação sobre as escolas nas quais poderiam inscrever os filhos. Eu também acho, mas a informação que ele disponibiliza só seria útil se estivessem reunidas duas condições. Primeira: que as “ordenações” fossem mais do que a mistura de um conjunto de médias aritméticas obtidas de maneiras diferentes (comparar a média dos nabos com a média das abóboras resulta numa sopa turva). Segunda: que fosse possível ir comprar a escola ao supermercado mais próximo, ou teletransportar as crianças todos os dias para qualquer escola do país.

E afinal, quando a medida se transforma na meta, deixa de ser uma boa medida. É quase inevitável, se a avaliação prevalece sobre o ensino e tende a discriminar arbitrariamente, que a pressão exercida sobre as escolas para melhorarem a sua posição nas tabelas leve à manipulação, ainda que benigna e bem-intencionada, dos fatores que contribuem para a formação das médias. A doce ilusão de rigor que os números facilmente produzem serve assim, pelo menos, para embalar o sono dos inocentes e para dar mais uma inocente facadinha no sistema público de ensino. Quem ganha com estas contas? E quem conta mais para quem tais histórias conta?

24 novembro, 2014

Neptuno, corrupções e teorias imperfeitas

A corrupção pode encontrar-se como se descobre um planeta invisível. A irregularidade detetada na trajetória orbital de Urano só parecia explicável pela força gravitacional de uma grande massa próxima. Urbain Le Verrier calculou um planeta. O “seu planeta” foi depois avistado por Gottfried Galle, que apontou um telescópio na direção que as tabelas astrais de Le Verrier indicavam. Viria a chamar-se Neptuno. Ninguém antes o tinha visto, mas tinha que estar lá, caso contrário a órbita de Urano não seria explicável segundo as leis de Newton. A riqueza inexplicável de certos cidadãos também faz suspeitar de muita massa em órbita próxima. Falta depois um telescópio que a vislumbre e comprove a gravidade da relação.

A analogia entre a descoberta de Le Verrier e os modos de descobrir a corrupção foi feita por Proust, mas não foi lá que eu a encontrei referida esta semana. Também não foi nos jornais e televisões, ocupados com os escândalos de corrupção do momento, que ameaçam desacreditar de vez o sistema político, mas não vão alterar o que sabemos sobre o sistema solar.
Amedee Charles Henri de Noe (Cham): Caricatura da descoberta de Neptuno, em 'Le Charivari', 1-Jan-1847
Tropecei na analogia, hoje mesmo, no livro de um português do qual não temos que nos envergonhar, o astrofísico Pedro Ferreira, professor da Universidade de Oxford. O seu livro The Perfect Theory, publicado em Portugal pela Presença (o título português transforma o artigo do título em indefinido, Uma Teoria Perfeita), esteve entre os seis finalistas do prémio anual da Royal Society para livros sobre ciência (o Royal Society Winton Prize for Science Books). É uma espécie de “biografia” da Teoria da Relatividade Geral, desde Einstein até aos nossos dias, e é tanto sobre as ideias, como sobre as pessoas que as pensaram: humanas, falíveis e geniais. (Que os leigos não temam, porque não há fórmulas matemáticas para decifrar). 

Falo disto apenas porque são estas histórias que a um tempo me distraem e me tornam mais evidente a vil tristeza que povoa o espaço em volta. Não apenas os escândalos de corrupção com certos vistos e ex-primeiros-ministros, mas as vistas curtas e os interesses ocultos dos que podem mudar ou influenciar a política em geral, e a política de educação e ciência em particular.

Os crânios fertilizados pela monocultura dominante reproduzem em mau português e em pior filosofia a ideia, que acham óbvia, da necessidade de ligação das universidades ao mundo empresarial. Acham eles e elas (foi uma Chica qualquer, deputada esperta, que li por estes dias), que as universidades devem ensinar em função de uma certa procura. Ora, uma universidade que responda exclusivamente a clientes não educa nem cultiva, forma. Forma técnicos. Não é a mesma coisa.  

Esta lógica de mercado imediatista teria inviabilizado Einstein e toda a Física Teórica, desde Isaac Newton a Pedro Ferreira, para não falar do ensino das humanidades e das ciências sociais, com exceção, claro está, da economia das escolas que professam a doutrina vigente e fornecem os técnicos de que o sistema carece para se autojustificar e se ir sustentando. É uma forma de corrupção do ensino e da investigação, que não deveriam ter que ser apenas “aplicados”, deveriam antes procurar saber. A universidade portuguesa pensada pelos “mercadistas” (que o neologismo me seja perdoado) poderia até formar técnicos que fabricassem um telescópio, mas dificilmente daria alguém que encontrasse Neptuno.    

09 novembro, 2014

Tragicomédia com pratos voadores

Há uma enorme tensão dramática num diálogo entre alienados com armas na mão. A tensão é quase sempre sustentada pela ameaça iminente de um desfecho trágico. Nos filmes ou no teatro, esse dramatismo faz parte do prazer que o espetador procura. Na vida real, porém, talvez só alguma perversão explique por que vejo tantas vezes o canal parlamento. 


As cenas de teatro que este canal oferece são bastante repetitivas, mas nem por isso menos assustadoras. Um destes dias, por exemplo, atiravam-se entre as várias bancadas alguns números do orçamento para 2015 – o aumento do IMI, a fiscalidade dita verde, a suposta impossibilidade de baixar o IRS – e vários deputados dos partidos que se acostumaram a governar comportavam-se como se brincassem na praia com preciosos pratos de porcelana chinesa pensando que fossem frisbees. Talvez os pratos, que são a vida de todos nós, e para muitos já são apenas cacos, devessem merecer um pouco mais de cuidado. As erráticas trajetórias dos pratos voadores, nestas discussões, provocam-me sempre uma valente dor de cabeça. Às vezes chega a ser uma espécie de violenta enxaqueca. 


Mas se fechar bem os olhos, espetar um indicador em cada ouvido e esperar 20 ou 30 anos, talvez isto passe. Estou a contar com uma esperança de vida que não subtraia muito dinheiro à segurança social com o pagamento da minha reforma (meramente hipotética, ou até mirífica, eu sei), porque o meu principal papel, enquanto cidadão responsável de um país em permanente estado de carência, é garantir o desafogo orçamental suficiente para que os governos competentemente distribuam os proveitos de uma fiscalidade justa por quem realmente merece e precisa. E são muitos os que aparentemente precisam: cônjuges, filhos, sobrinhos, afilhados, amigos, compadres, correligionários, clientes e respetivas empresas de sucesso; bem como gente bem colocada para beneficiar cônjuges, filhos, sobrinhos, afilhados, amigos, compadres, correligionários, clientes e respetivas empresas de sucesso.

Como isto é tudo gente de bem, com famílias numerosas e amigos que também se reproduzem com alguma desenvoltura, não se pode sequer dizer que os beneficiários da governamental munificência sejam uma minoria negligenciável, nem que os seus interesses não devam merecer o nosso abnegado sacrifício. Espera-se de nós – deficitários na fina astúcia de ser amigos, familiares, correligionários, clientes, ou empreendedores especializados na arte de estabelecer relações nos círculos certos, ou em outras figuras da geometria política partidária privatizada (PPP) – que compreendamos o défice das contas públicas, o problema da dívida externa, o fundo de apoio à banca e o fundo de resolução do BES, funções quadráticas, antimatéria, as profecias do Bandarra e a importância dos brócolos numa dieta saudável. Será pedir muito?


Desconfio que foi o Bandarra quem profetizou este grande império de espíritos tansos e que foram os brócolos que obrigaram milhares de portugueses mais fraquinhos, e menos espirituosos, à emigração. Eu até gosto de brócolos e também gostaria de mudar de estado, mas por este andar, só se for para o estado gasoso. O que não seria improvável se eu fosse um banco. Afinal, conhecemos vários casos de bancos que num dia eram sólidos e no dia seguinte passaram diretamente a gasosos, perdendo aquela parte importante entre os dois estados que é a liquidez, num fenómeno de verdadeira sublimação. 


As cenas do teatro parlamentar não aspiram a nada de sublime. Os atores são quase todos toscos, sejam eles figurões ou figurantes, e muitos são apenas parte do trágico coro canino que dobra a cerviz perante a sombra do dono. O que eles representam percebe-se. Quem eles deviam representar demora a perceber.

Cidades do Interior

Chiharu Shiota, A Room of Memory , 2009 são vastas as cidades do interior de noite corremos as ruas ao abrigo da luz param...